Fernão Capelo Gaivota 5 -Terceira Parte -Richard Bach


Francisco abanou a cabeça, abriu as asas e descerrou os olhos, junto da base do rochedo onde se juntara todo o bando. Da multidão ergueu-se um enorme clamor de gritos e guinchos quando o viram mexer-se pela primeira vez. — Está vivo! Estava morto e VIVE! — Tocou-o com a ponta de uma asa! Trouxe-o à vida! É o filho da Grande Gaivota!— Não, ele o nega! É o Demônio! O DEMÔNIO! Veio para semear a discórdia entre o bando! Havia quatro mil gaivotas na multidão, amedrontadas pelo que aconteceu, e o grito DEMÔNIO! percorreu-as como o vento de uma tempestade marítima. De olhos vidrados e bico afiado, avançaram unidas, prontas a destruir. — Você se sentiria melhor se partíssemos, Francisco? — perguntou Fernão. — Não poria muitas objeções se o fizéssemos... Instantaneamente, fixaram-se ambos a oitocentos metros e os bicos vibrantes da multidão fecharam-se no vazio. — Por que será — interrogou-se Fernão — que a coisa mais difícil do mundo é convencer um pássaro de que é livre e de que pode prová-lo a si próprio se se dedicar a treinar um pouco? Por que será tão difícil? Francisco ainda pestanejava devido à mudança de cenário. — O que é que você fez? Como é que viemos parar aqui? — Você não disse que queria sair do meio da multidão? — Disse, mas como é que você... — Como todo o resto, Francisco. Treino. Quando a manhã surgiu, o bando já esquecera a sua loucura. Mas Francisco recordava. — Fernão, você se lembra do que disse, há muito tempo, acerca de amar o bando o bastante para voltar a ele e ajudá-lo a aprender? — Claro que me lembro! — Não compreendo como você consegue amar um punhado de pássaros que acabam de tentar matá-lo. — Oh! Chico! Não é isso que você ama! Você não ama o ódio e o inferno, é claro. Você tem de treinar até ver a verdadeira gaivota, o que há de bom em cada uma delas, e ajudá-las a ver isso nelas próprias. Para mim, o amor é isso. Quando você conseguir compreender e pôr isso em prática, até achará divertido. "Lembro-me de um jovem pássaro impetuoso, por exemplo, chamado Francisco Coutinho Gaivota. Acabava de ser banido; estava pronto a lutar com o bando até a morte e começou por construir o seu próprio inferno amargo nos domínios dos Penhascos Longínquos. E aqui está ele hoje, construindo o seu próprio paraíso em vez do inferno, e guiando todo o bando nessa direção." Francisco virou-se para o seu instrutor e houve um momento de medo no seu olhar. — EU, guiando-os? Que você quer dizer com isso? Você é o instrutor. Não pode ir-se embora. — Acha que não? Você não julga que possa haver outros bandos, outras Franciscos, que necessitem mais de um instrutor do que este que se encaminha para a luz? — EU? Fernão, eu sou uma simples gaivota e você é... — ... o próprio filho da Grande Gaivota, suponho? — Fernão suspirou e olhou o mar. — Você já não precisa de mim. Precisa continuar descobrindo, pouco a pouco, todos os dias, o verdadeiro e ilimitado Francisco Gaivota. É ele o seu melhor instrutor. Você precisa compreendê-lo e treiná-lo. Um momento depois, o corpo de Fernão começou a estremecer no ar, a ficar brilhante e a tornar-se transparente. — Não os deixe espalhar boatos a meu respeito ou fazerem de mim um deus. De acordo, Chico? Eu sou uma gaivota que gosta de voar, talvez... — FERNÃO! — Pobre Chico! Não creia no que os seus olhos lhe dizem. Todo que mostram é limitação. Olhe com o entendimento, descubra o que você já sabe e verá como voar. O brilho extinguiu-se. Fernão Gaivota desapareceu no ar. Passado um bocado, Francisco Gaivota arrastou-se para o céu e encontrou-se face a face com um novo grupo de alunos, desejosos de ter a sua primeira lição. — Para começar — disse Francisco pesadamente —, têm de compreender que uma gaivota é uma ilimitada idéia de liberdade, uma imagem da Grande Gaivota, e todo o corpo de vocês, da ponta de uma asa à ponta da outra, não é mais do que o próprio pensamento de vocês. As jovens gaivotas olharam-no interrogativamente. "Isso não parece uma regra do 'loop'!", pensaram. Francisco suspirou e recomeçou. — Hum... muito bem... Vamos começar com o vôo planado — disse-lhes, observando-os com ar de crítica. Mas, ao dizer isso, compreendeu de súbito que o seu amigo não fora mais divino do que ele próprio. "Não há limites, Fernão!?", pensou. "Bem, então não está longe o dia em que aparecerei na sua praia e lhe mostrarei uma ou duas coisas acerca de vôo!" E embora tentasse mostrar-se severo com os seus alunos, Francisco Gaivota viu-os de repente como eram realmente, por um momento, e, mais do que gostou, amou o que viu. "Não há limites, Fernão?", pensou, e sorriu. A sua corrida para a aprendizagem acabava de começar.

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Beijos de luz
mirna