Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 52

                                                           Magnetismo Curativo - Alphone Bouvier

239. A ação magnética não produz somente efeitos sensíveis sobre a pessoa magnetizada, o próprio operador experimenta efeitos reativos muito perceptíveis dessa ação. 

“Se a Natureza, diz Bruno, dotou aquele que magnetiza de alguma delicadeza na sensibilidade de seus nervos, ele sentirá exteriormente uma parte dos movimentos irregulares que se derem na pessoa magnetizada. Estas sensações serão para ele indícios seguros do trabalho que a Natureza, ajudada pela sua ação, opera no doente.” Esse tato, que permite distinguir a marcha das correntes no organismo, passando simplesmente a mão, quer pela superfície, quer a alguma distância de um corpo, não é dado a todos: cada qual não é invariavelmente dotado dessa faculdade e não a possui permanentemente no mesmo grau; essa preciosa sensibilidade se desenvolve pelo exercício e a atenção, e quando se magnetiza deve-se estudar com cuidado todas as sensações manuais que se experimenta. Às vezes, um sopro quente projeta-se das mãos do magnetizado; esse calor nem sempre é da mesma natureza; tem gradações que o hábito ensina a distinguir: Se esse calor é seco e quente, é sinal de que no doente a circulação geral encontra obstáculo devido a uma tensão anormal dos nervos. Se o calor é brando e úmido, é sinal de que no doente a circulação está livre, e é um anúncio de interrupção próxima trazendo evacuações. Se, em vez de calor, o magnetizador sentir frio nas mãos, é indício certo de que no paciente há atonia e paralisia dos órgãos. Titilações e formigamentos nos dedos denunciam a existência de um excesso de bílis, de sangue acre, de um estado herpético. Produz-se às vezes um adormecimento das mãos e dores de câimbra nos dedos, que se propagam aos braços: é um indício de estagnações linfáticas, de obstruções nas funções digestivas e de acúmulo de viscosidades. O magnetizador experimenta às vezes estremecimentos nervosos, vibrações, abalos rápidos e fugitivos como choques elétricos: é sinal de um estado congestivo do sistema nervoso e de congestões fluídicas no paciente. 

É inútil insistir sobre o partido que se pode tirar dessa preciosa faculdade de percepção, que permite julgar do estado dos órgãos e da marcha das correntes. Estudando-se com atenção as sensações que se fazem experimentar a um doente e as que se experimenta em si mesmo ao magnetizar, adquire-se logo a melhor regra de exploração que pode guiar na conduta de um tratamento; pouco a pouco essas percepções intuitivas, arrastando a mão do operador sobre tal ponto do corpo do doente de preferência a um outro, determinam a escolha dos processos magnéticos mais próprios para combater as alterações mórbidas, das quais acaba-se por conhecer melhor a extensão, a sede e a natureza. 

240. Apreciando inteiramente em seu justo valor o socorro precioso que o tato magnético pode trazer ao operador, no ponto de vista do diagnóstico e do processo de um tratamento, cumpre entretanto não cair na exageração cometida por certos práticos que, adotando como base da sua terapêutica a regra seguinte “deixai que a mão caminhe na direção em que a corrente a leva”, deram ensejo ao que eles denominam o arrastamento da corrente; e criaram, em detrimento dos processos fisiológicos, uma espécie de magnetismo místico em que a sensibilidade é tudo. Estes sensitivistas pretendem perceber as dores e os males daqueles a quem magnetizam; quando eles se colocam em relação com um doente, fecham os olhos, concentram-se, e fixando a sua atenção, apalpam sucessivamente todas as partes de seu corpo; encontram deste modo as regiões afetadas, experimentam antecipadamente, de uma maneira muito dolorosa, as crises que o doente deve experimentar, e ao deixá-lo levam uma sensação muito persisten-te do seu mal, que muitas vezes só com dificuldade conseguem expelir. 

Não nego a existência desta sensitividade especial: somente acho-a mais nociva do que útil, porque, apesar de toda a força de projeção que possam possuir essas naturezas extra sensíveis, elas são forçosamente muito sujeitas às influências externas para exercerem em sua plenitude uma ação irradiante sobre os doentes. Alguns magnetizadores de notoriedade incontestável, entre outros o Barão Du Potet, partindo de idéias preconcebidas, formularam esta opinião: que, ao magnetizar, revolvem-se os princípios mórbidos do organismo, como se turvássemos a vasa de um pântano envenenado, e que assim, colocado num círculo de emanações insalubres, todo magnetizador corre o risco de contrair em todo ou em parte a enfermidade do seu doente. Em apoio desta asserção, Du Potet pretende que ele claudicava depois de haver tratado de um derrame coxo-femural; que se tornava um tanto mouco depois de haver tratado de surdos; tossia com os tísicos; sentia as dores artríticas dos gotosos; e os coléricos convulsionaram os seus intestinos. Essas impressões, felizmente, eram apenas efêmeras, por isso que o mestre é o primeiro a dizer que, em sua longa carreira de magnetizador, realmente nunca contraíra nenhuma moléstia de seus doentes e que constantemente possuíra uma força vital exuberante. Essa confissão nos prova que há muita imaginação nos fatos que expusemos. É inútil protestar contra afirmações que tendem a deixar acreditar que se pode adquirir moléstia magnetizando-se; essa crença presta-se a afastar da prática do magnetismo certos espíritos timoratos e fracos. Uma observação atenta e o estudo da marcha das correntes não deixam dúvida algu-ma a esse respeito e demonstram que a transmissão das moléstias pela magnetização é apenas um mito.